Diálogo em paralelo perfeito, como as linhas de comboio.
Espaço apenas onírico, apenas paralelo
Man Ray
X - roubo as tuas palavras, apenas palavras, deixo passar os profetas, apenas poetas, olho-me ao vidro apenas espelho da minha vaidade, olho em frente e não vejo o infinito.
Y - ao invés, eu apanho o comboio da imaginação, o que do oriente me sabe a paisagens desvairadas de cor, voo no desconhecido de mim, já tenho bilhete. Galgo montanhas e regresso sempre bela, no meu caminho sem certezas , mas com a verdade na ponta das dúvidas.
X - desconheço as tuas pegadas que doiram a areia, olho apenas a minha sombra
Y - olho em volta e aprendi que brincar é a coisa mais séria do mundo, sou clara como uma aguarela de tons suaves, dou boleia a quem não sabe viajar.
X - faço o meu caminho em exercício de estilo, sou igual a mim próprio, avanço por aqui em direcção a mim, sei que não vou por aí
Y - sou tão só e tão precisa, tão necessária e tão efémera como as estrelas que a minha melodia não se cansa de tocar, sou de alma e de corpo
X - estou só entre a gente, escondo o que não sei mostrar, estou longe, estou perto? amo o intocável, se mostrar a minha alma partirei o vidro e o meu reflexo cairá em mil pedaços de espelho, se o espelho se partir, cegarei a tua vontade de ver o que eu nunca vi.
Y - amo a multiplicidade do espelho intacto, amo o espaço onírico onde o meu reflexo me devolve os risos e as lágrimas que oiço no fim dos meus dias, amo aquela folha pratada que transforma a superfície fria do vidro em espelho mágico, amo os palhaços e as fotografias que se tiram sem máquina, amo o papel de seda em que embrulho a vida.
X - roubei as tuas palavras e nada ouvi
Y - roubei-te o reflexo no espelho e deixei a tua alma no vidro